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terça-feira, 16 de outubro de 2012

Romeu & Julieta - Shakespeare





Cena V

O mesmo. Um salão em casa de Capuleto. Músicos esperam. Entram criados.

ROMEU - Que dama é aquela que enriquece o braço daquele cavalheiro?
CRIADO - Desconheço-a, meu senhor.
ROMEU -Oh! ela ensina a tocha a ser luzente. Dir-se-ia que da face está pendente da noite, tal qual jóia, mui preciosa da orelha de uma etíope mimosa. Bela demais para o uso, muito cara para a vida terrena. Como clara pomba ao lado de gralhas tagarelas, anda no meio das demais donzelas. Vou procurá-la, ao terminar a dança porque a esta rude mão possa dar ansa de tocar nela e, assim, ficar bendita. Meu coração, até hoje, teve a dita de conhecer o amor? Oh! que simpleza! Nunca soube até agora o que é beleza.
TEBALDO - Pela voz este aqui é algum Montecchio. Rapaz, vai buscar logo minha espada. Como! Esse escravo atreve-se a, com máscara grotesca, vir aqui, para de nossa festividade rir e fazer pouco? Pela honra do meu sangue e nobre estado, dar-lhe a morte não julgo ser pecado.
CAPULETO - Que tens, sobrinho? Que se dá contigo?
TEBALDO - Tio, aquele é um Montecchio, nosso imigo; um vilão que aqui entrou por zombaria, para nos estragar toda a alegria.
CAPULETO - Não é o jovem Romeu?
TEBALDO - O mesmo, o biltre Romeu.
CAPULETO - Gentil sobrinho, fica quieto; deixa-o tranqüilo. Ele se tem mostrado perfeito gentil-homem. Para ser-te franco, Verona tem orgulho dele, como rapaz virtuoso e mui polido. Nem por toda a riqueza da cidade quisera que ele aqui fosse ofendido. Acalma-te, portanto, e fica alegre; essa é a minha vontade. Se a acatares, fica alegre e desfaze essa carranca que não vai bem com nossa alacridade.
TEBALDO - Vai, sim, quando um vilão se mete nela. Não o suporto.
CAPULETO - Terás de suportá-lo. Como, rapaz! Estou mandando: deixa-o! Quem manda aqui, acaso; vós ou eu? Ora, não o suportais! Deus me salve a alma. Quereis fazer barulho entre meus hóspedes? Provocar briga? Ser mandão na festa?
TEBALDO - Mas, tio, é vergonhoso...
CAPULETO - Ide, ide. Sois petulante, não? Prejudicar-vos ainda pode esta história. Sei de tudo. Procurais contrariar-me? Eis o momento. - Muito bem, corações! - Sois um fedelho. Ide acalmar-vos - Luz! Mais luz! - Que opróbrio! Já vou deixar-vos quieto. - Assim, meus caros! Alegria! Alegria!
TEBALDO - A paciência e o furor, equilibrados, inativos me deixam com seus brados. Vou sair; mas o intruso que hoje é mel, será amanhã o mais amargo fel. (Sai.)
ROMEU - (a Julieta) - Se minha mão profana o relicário em remissão aceito a penitência: meu lábio, peregrino solitário, demonstrará, com sobra, reverência.
JULIETA - Ofendeis vossa mão, bom peregrino, que se mostrou devota e reverente. Nas mãos dos santos pega o paladino. Esse é o beijo mais santo e conveniente.
ROMEU - Os santos e os devotos não têm boca?
JULIETA - Sim, peregrino, só para orações.
ROMEU -Deixai, então, ó santa! que esta boca mostre o caminho certo aos corações.
JULIETA - Sem se mexer, o santo exalça o voto.
ROMEU -Então fica quietinha: eis o devoto. Em tua boca me limpo dos pecados. (Beija-a.)
JULIETA -Que passaram, assim, para meus lábios.
ROMEU -Pecados meus? Oh! Quero-os retornados. Devolve-mos.
JULIETA - Beijais tal qual os sábios.
AMA - Vossa mãe quer falar-vos, senhorita.
ROMEU - Quem é a mãe dela?
AMA - Ora essa, cavalheiro! A dona desta casa, certamente, uma digna senhora, honesta e sábia. Amamentei-lhe a filha, a senhorita com que falastes. E uma coisa eu digo, com certeza: quem vier a desposá-la, ficará cheio de ouro.
ROMEU - É Capuleto? Oh conta cara! Minha vida é dívida de hoje em diante no livro do inimigo.
BENVÓLIO - A festa já acabou; vamos embora.
ROMEU -Acabou? Para mim começa agora.
CAPULETO - Não, cavalheiros, não saiais tão cedo; ainda teremos uma ceiazinha. Mas partis mesmo? A todos, obrigado. Muito obrigado, honesto cavalheiro. Boa noite. - Trazei-me aqui mais tochas! Sendo assim, vou deitar-me. É certo, amigo: já está ficando tarde. Vou deitar-me. (Saem todos, com exceção de Julieta e a ama.)
JULIETA -Ama, quem é aquele gentil-homem?
AMA - Herdeiro e filho de Tibério, o velho.
JULIETA -E aquele que ora passa pela porta?
AMA - Se não me engano, é o filho de Petrucchio.
JULIETA -E aquele que ali vai, que não dançou?
AMA - Não sei quem seja.
JULIETA -Então vai perguntar-lhe como se chama. Vai! Se for casado, um túmulo será todo o meu fado.
AMA - Romeu é o nome dele; é um dos Montecchios, filho único do vosso grande imigo.
JULIETA - Como do amor a inimizade me arde! Desconhecido e asnado muito tarde. Como esse monstro, o amor, brinca comigo: apaixonada ver-me do inimigo!
AMA - Como assim? Como assim?
JULIETA - Isso é uma rima que aprender fui com quem dancei há pouco.
AMA - Já vamos! Um momento! - Está na hora; já se foram os hóspedes embora. (Saem.)
ATO II
Cena I
Verona. Um beco junto do muro do jardim de Capuleto. Entra Romeu.

ROMEU -Como afastar-me, se daqui não pode sair meu coração? Dá meia-volta, pesada argila, e o centro teu procura. (Escala o muro e salta para o jardim.) (Entram Benvólio e Mercúcio.)
BENVÓLIO - Romeu! Primo Romeu!
MERCÚCIO - Ele é prudente, por minha fé, e soube achar a estrada para o leito macio.
BENVÓLIO - Em disparada veio até aqui, tendo pulado o muro que dá para o jardim. Chama-o, Mercúcio.
MERCÚCIO - Vou conjurá-lo, sim. Romeu! Capricho! paixão! sujeito louco! enamorado! Vem sob a forma de um gemido fundo; dize uma rima só, que isso me basta. Geme "ai!" e rima "amor" com "trovador", dize à comadre Vênus algo belo; o filho cego e herdeiro dela insulta, Cupido, o moço archeiro que um disparo fez tão airoso, quando o Rei Cofétua se apaixonou de uma mendiga jovem. Não ouve, não se mexe, está parado. O macaco está morto. Vou fazer-lhe um conjuro mais forte. Eu te conjuro pelos olhos sem par de Rosalina, por sua fronte, os lábios escarlates, os delicados pés, as belas pernas, as tremulantes coxas e os domínios adjacentes. Conjuro-te, repito, que, tal como és, em nossa frente surjas.
BENVÓLIO - Se ele te ouve, decerto vais magoá-lo.
MERCÚCIO - Não, isso não o magoa. O que o magoara fora invocar no circulo da amada um espírito estranho e ai deixá-lo até que ela o tivesse exorcismado. Isso sim, poderia aborrecê-lo; mas minha invocação é bela e honesta; o nome digo de sua própria amada, só para que ele possa reanimar-se.
BENVÓLIO - Vamos; ele ocultou-se entre essas árvores, para perto ficar da úmida noite. Seu cego amor diz bem com a escuridão.
MERCÚCIO - Se o amor é cego, nunca acerta no alvo. Agora vai sentar-se sob a fronde de um nespereiro, a desejar que a amada fosse a fruta que as jovens chamam nêspera, quando riem sozinhas. Ó Romeu! se ela fosse um "Et cetera", realmente, bem aberto, e tu, pêra açucarada! Romeu, boa noite! Vou para meu leito de rodas; esta cama de campanha para mim é muito úmida. - Não vamos?
BENVÓLIO - Vamos, então; pois é canseira inútil procurar quem não quer ser encontrado.

Cena II
O mesmo. Jardim de Capuleto. Entra Romeu.

ROMEU - Só ri das cicatrizes quem ferida nunca sofreu no corpo. (Julieta aparece na janela.) Mas silêncio! Que luz se escoa agora da janela? Será Julieta o sol daquele oriente? Surge, formoso sol, e mata a lua cheia de inveja, que se mostra pálida e doente de tristeza, por ter visto que, como serva, és mais formosa que ela. Deixa, pois, de servi-la; ela é invejosa. Somente os tolos usam sua túnica de vestal, verde e doente; joga-a fora. Eis minha dama. Oh, sim! é o meu amor. Se ela soubesse disso! Ela fala; contudo, não diz nada. Que importa? Com o olhar está falando. Vou responder-lhe. Não; sou muito ousado; não se dirige a mim: duas estrelas do céu, as mais formosas, tendo tido qualquer ocupação, aos olhos dela pediram que brilhassem nas esferas, até que elas voltassem. Que se dera se ficassem lá no alto os olhos dela, e na sua cabeça os dois luzeiros? Suas faces nitentes deixariam corridas as estrelas, como o dia faz com a luz das candeias, e seus olhos tamanha luz no céu espalhariam, que os pássaros, despertos, cantariam. Vede como ela apoia o rosto à mão. Ah! se eu fosse uma luva dessa mão, para poder tocar naquela face!
JULIETA -Ai de mim!
ROMEU - Oh, falou! Fala de novo, anjo brilhante, porque és tão glorioso para esta noite, sobre a minha fronte, como o emissário alado das alturas ser poderia para os olhos brancos e revirados dos mortais atônitos, que, para vê-lo, se reviram, quando montado passa nas ociosas nuvens e veleja no seio do ar sereno.
JULIETA -Romeu, Romeu! Ah! por que és tu Romeu? Renega o pai, despoja-te do nome; ou então, se não quiseres, jura ao menos que amor me tens, porque uma Capuleto deixarei de ser logo.
ROMEU -(à parte) - Continuo ouvindo-a mais um pouco, ou lhe respondo?
JULIETA - Meu inimigo é apenas o teu nome. Continuarias sendo o que és, se acaso Montecchio tu não fosses. Que é Montecchio? Não será mão, nem pé, nem braço ou rosto, nem parte alguma que pertença ao corpo. Sê outro nome. Que há num simples nome? O que chamamos rosa, sob uma outra designação teria igual perfume. Assim Romeu, se não tivesse o nome de Romeu, conservara a tão preciosa perfeição que dele é sem esse título. Romeu, risca teu nome, e, em troca dele, que não é parte alguma de ti mesmo, fica comigo inteira.
ROMEU - Sim, aceito tua palavra. Dá-me o nome apenas de amor, que ficarei rebatizado. De agora em diante não serei Romeu.
JULIETA -Quem és tu que, encoberto pela noite, entras em meu segredo?
ROMEU -Por um nome não sei como dizer-te quem eu seja. Meu nome, cara santa, me é odioso, por ser teu inimigo; se o tivesse diante de mim, escrito, o rasgaria.
JULIETA - Minhas orelhas ainda não beberam cem palavras sequer de tua boca, mas reconheço o tom. Não és Romeu, um dos Montecchios?
ROMEU -Não, bela menina; nem um nem outro, se isso te desgosta.
JULIETA -Dize-me como entraste e porque vieste. Muito alto é o muro do jardim, difícil de escalar, sendo o ponto a própria morte - se quem és atendermos - caso fosses encontrado por um dos meus parentes.
ROMEU - Do amor as lestes asas me fizeram transvoar o muro, pois barreira alguma conseguirá deter do amor o curso, tentando o amor tudo o que o amor realiza. Teus parentes, assim, não poderiam desviar-me do propósito.
JULIETA - No caso de seres visto, poderão matar-te.
ROMEU - Ai! Em teus olhos há maior perigo do que em vinte punhais de teus parentes. Olha-me com doçura, e é quanto basta para deixar-me à prova do ódio deles.
JULIETA -Por nada deste mundo desejara que fosses visto aqui.
ROMEU - A capa tenho da noite para deles ocultar-me. Basta que me ames, e eles que me vejam! Prefiro ter cerceada logo a vida pelo ódio deles, a ter morte longa, faltando o teu amor.
JULIETA - Com quem tomaste informações para até aqui chegares?
ROMEU -Com o amor, que a inquirir me deu coragem;. deu-me conselhos e eu lhe emprestei olhos. Não sou piloto; mas se te encontrasses tão longe quanto a praia mais extensa que o mar longínquo banha, aventurara-me para obter tão preciosa mercancia.
JULIETA - Sabe-lo bem: a máscara da noite me cobre agora o rosto; do contrário, um rubor virginal me pintaria, de pronto, as faces, pelo que me ouviste dizer neste momento. Desejara - oh! minto! - retratar-me do que disse. Mas fora! fora com as formalidades! Amas-me? Sei que vais dizer-me "sim", e creio no que dizes. Se o jurares, porém, talvez te mostres inconstante, pois dos perjúrios dos amantes, dizem, Jove sorri. Ó meu gentil Romeu! Se amas, proclama-o com sinceridade; ou se pensas, acaso, que foi fácil minha conquista, vou tornar-me ríspida, franzir o sobrecenho e dizer "não", porque me faças novamente a corte. Se não, por nada, nada deste mundo. Belo Montecchio, é certo: estou perdida, louca de amor; daí poder pensares que meu procedimento é assaz leviano; mas podeis crer-me, cavalheiro, que hei de mais fiel mostrar-me do que quantas têm bastante astúcia para serem cautas. Poderia ter sido mais prudente, preciso confessá-lo, se não fosse teres ouvido sem que eu percebesse, minha veraz paixão. Assim, perdoa-me, não imputando à leviandade, nunca, meu abandono pronto, descoberto tão facilmente pela noite escura.
ROMEU -Senhora, juro pela santa lua que acairela de prata as belas frondes de todas estas árvores frutíferas...
JULIETA - Não jures pela lua, essa inconstante, que seu contorno circular altera todos os meses, porque não pareça que teu amor, também, é assim mudável.
ROMEU -Por que devo jurar?
JULIETA -Não jures nada, ou jura, se o quiseres, por ti mesmo, por tua nobre pessoa, que é o objeto de minha idolatria. Assim, te creio.
ROMEU -Se o amor sincero deste coração...
JULIETA -Pára! não jures; muito embora sejas toda minha alegria, não me alegra a aliança desta noite; irrefletida foi por demais, precipitada, súbita, tal qual como o relâmpago que deixa de existir antes que dizer possamos: Ei-lo! brilhou! Boa noite, meu querido. Que o hálito do estio amadureça este botão de amor, porque ele possa numa flor transformar-se delicada, quando outra vez nos virmos. Até à vista; boa noite. Possas ter a mesma calma que neste instante se me apossa da alma.
ROMEU - Vais deixar-me sair mal satisfeito?
JULIETA -Que alegria querias esta noite?
ROMEU - Trocar contigo o voto fiel de amor.
JULIETA -Antes que mo pedisses, já to dera; mas desejara ter de dá-lo ainda.
ROMEU -Desejas retirá-lo? Com que intuito, querido amor?
JULIETA - Porque, mais generosa, de novo to ofertasse. No entretanto, não quero nada, afora o que possuo. Minha bondade é como o mar: sem fim, e tão funda quanto ele. Posso dar-te sem medida, que muito mais me sobra: ambos são infinitos. (A ama chama dentro.) Ouço bulha dentro de casa. Adeus, amor! Adeus! - Ama, vou já! - Sê fiel, doce Montecchio. Espera um momentinho; volto logo. (Retira-se da janela.)
ROMEU -Oh! que noite abençoada! Tenho medo, de um sonho, lisonjeiro em demasia para ser realidade. (Julieta torna a aparecer em cima.)
JULIETA -  Romeu querido, só três palavrinhas, e boa noite outra vez. Se esse amoroso pendor for sério e honesto, amanhã cedo me envia uma palavra pelo próprio que eu te mandar: em que lugar e quando pretendes realizar a cerimônia, que a teus pés deporei minha ventura, para seguir-te pelo mundo todo como a senhor e esposo.
AMA (dentro) - Senhorita!
JULIETA - Já vou! Já vou! - Porém se não for puro teu pensamento, peço-te...
AMA (dentro) - Menina!
JULIETA - Já vou! Neste momento! - ... que não sigas com tuas insistências e me deixes entregue à minha dor. Amanhã cedo te mandarei recado por um próprio.
ROMEU -Por minha alma...
JULIETA -Boa noite vezes mil. (Retira-se.)
ROMEU -Não, má noite, sem tua luz gentil. O amor procura o amor como o estudante que para a escola corre: num instante. Mas, ao se afastar dele, o amor parece que se transforma em colegial refece. (Faz menção de retirar-se.) (Julieta torna a aparecer em cima.)
JULIETA -Psiu! Romeu, psiu! Oh! quem me dera o grito do falcoeiro, porque chamar pudesse esse nobre gavião! O cativeiro tem voz rouca; não pode falar alto, senão eu forçaria a gruta de Eco, deixando ainda mais rouca do que a minha sua voz aérea, à força de cem vezes o nome repetir do meu Romeu.
ROMEU -Minha alma é que me chama pelo nome. Que doce som de prata faz a língua dos amantes à noite, tal qual música langorosa que ouvido atento escuta?
JULIETA -Romeu!
ROMEU - Minha querida?
JULIETA -A que horas, cedo, devo mandar alguém para falar-te?
ROMEU -Às nove horas.
JULIETA -Sem falta. Só parece que até lá são vinte anos. Esqueci-me do que tinha a dizer.
ROMEU -Deixa que eu fique parado aqui, até que te recordes.
JULIETA - Esquecê-lo-ia, só para que sempre ficasses ai parado, recordando-me de como adoro tua companhia.
ROMEU -E eu ficaria, para que esquecesses, deixando de lembrar-me de outra casa que não fosse esta aqui.
JULIETA -É quase dia; desejara que já tivesses ido, não mais longe, porém, do que travessa menina deixa o meigo passarinho, que das mãos ela solta - tal qual pobre prisioneiro na corda bem torcida – para logo puxá-lo novamente pelo fio de seda, tão ciumenta e amorosa é de sua liberdade.
ROMEU -Quisera ser teu passarinho.
JULIETA -O mesmo, querido, eu desejara; mas de tanto te acariciar, podia, até, matar-te. Adeus; calca-me a dor com tanto afã, que boa-noite eu diria até amanhã.
ROMEU - Que aos teus olhos o sono baixe e ao peito. Fosse eu o sono e dormisse desse jeito! Vou procurar meu pai espiritual, para um conselho lhe pedir leal.
(Sai.)

Romeu & Julieta - Shakespeare

quinta-feira, 11 de outubro de 2012

Via Láctea - Olavo Bilac




XIII

"Ora (direis) ouvir estrelas! Certo
Perdeste o senso!" E eu vos direi, no entanto,
Que, para ouvi-las, muita vez desperto
E abro as janelas, pálido de espanto...

E conversamos toda a noite, enquanto
A via-láctea, como um pálio aberto,
Cintila. E, ao vir do sol, saudoso e em pranto,
Inda as procuro pelo céu deserto.

Direis agora: "Tresloucado amigo!
Que conversas com elas? Que sentido
Tem o que dizem, quando estão contigo?"

E eu vos direi: "Amai para entendê-las!
Pois só quem ama pode ter ouvido
Capaz de ouvir e de entender estrelas".


XXV

“Tu, que no pego impuro das orgias
Mergulhavas ansioso e descontente,
E, quando à tona vinhas de repente,
Cheias as mãos de pérolas trazias;

Tu, que do amor e pelo amor vivias,
E que, como de límpida nascente,
Dos lábios e dos olhos a torrente
Dos versos e das lágrimas vertias;

Mestre querido! viverás, enquanto
Houver quem pulse o mágico instrumento,
E preze a língua que prezavas tanto:

E enquanto houver num canto do universo
Quem ame e sofra, e amor e sofrimento
Saiba, chorando, traduzir no verso.”


IV

“Como a floresta secular, sombria,
Virgem do passo humano e do machado,
Onde apenas, horrendo, ecoa o brado
Do tigre, e cuja agreste ramaria

Não atravessa nunca a luz do dia,
Assim também, da luz do amor privado,
Tinhas o coração ermo e fechado,
Como a floresta secular, sombria...

Hoje, entre os ramos, a canção sonora
Soltam festivamente os passarinhos.
Tinge o cimo das árvores a aurora...

Palpitam flores, estremecem ninhos...
E o sol do amor, que não entrava outrora,
Entra dourando a areia dos caminhos.”



Via Láctea – Olavo Bilac

quinta-feira, 23 de agosto de 2012

O Pequeno Príncipe


     Recordar é viver...

     Trata-se da estória de um príncipe que morava em um pequeno planeta adiante. Viajava através de planetas e reinos, conhecendo pessoas, lugares, sentimentos e valores. Possuia, pois, uma flor muito especial que amava muito.
     A flor embora bonita e cheirosa era vã e exigente, ingênua e orgulhosa! Acreditava que seus espinhos a protegeriam, exigiu que o príncipe a cobrisse com uma tela. Disse-lhe para colocá-la sob um globo de vidro à noite para protegê-la do frio. Embora o príncipe a amasse, estava cansado de ouvir-lhe as exigências, assim ele partiu de seu planeta com um bando de pássaros em migração.
     O Pequeno Príncipe, então, vem aqui pra Terra, encontrando um campo com milhares de rosas iguais a dele. Achara, assim, que tinha perdido tempo, pois haviam milhões de outras rosas iguais a dele. Não sendo ela especial. Mas, a raposa, fez com que ele entendesse que o tempo que ele perdera com aquela rosa, cuidando, protegendo, ouvindo-a queixar-se ou gabar-se, tirando as larvas, deixando apenas duas ou três, por causa das borboletas, protegendo com a redoma, para que ela não ficasse exposta ao vento, cada gesto, fez daquela rosa ÚNICA! As outras eram apenas rosas...
     Ensinou-lhe, ainda, a raposa: "a gente só conhece bem as coisas que cativou, os homens não têm mais tempo de conhecer coisa alguma. Compram tudo prontinho nas lojas, mas como não existem lojas de amigos, os homens não têm mais amigos. Se tu queres um amigo, cativa-me!..."

Rodrigo Santana da Fonseca Amorim





quinta-feira, 16 de agosto de 2012

Marília de Dirceu - Thomás Antônio Gonzaga



“Pintam, Marília, os poetas
a um menino vendado,
com uma aljava de setas,
arco empunhado na mão;
ligeiras asas nos ombros,
o tenro corpo despido,
e de amor ou de culpido
são os nomes que lhe dão...

Tu Marília, agora vendo
de amor o lindo retrato,
contigo estarás dizendo
que é este o retrato teu.
Sim, Marília, a cópia é tua,
que cupido é deus suposto:
se há cupido é só teu rosto,
que ele foi quem me venceu...

Na sua face mimosa, Marília,
estão misturadas purpúreas folhas de rosa,
brancas folhas de jasmim.
Dos rubins mais preciosos
os seus beiços são formados;
os seus dentes delicados
são pedações de marfim.

Mal vi seu rosto perfeito,
dei logo um suspiro, e ele
reconheceu haver-me feito
estrago no coração.
Punha em mim os olhos, quando
entendia eu não olhava;
vendo que o via, baixava
a modesta vista ao chão.


Marília de Dirceu - Thomás Antônio Gonzaga



segunda-feira, 30 de julho de 2012

A Ladeira da Saudade - Ganymédes José



Lília é de uma família rica de São Paulo e termina o namoro com o filho chato da amiga da mãe. Tia-avó Ninota aparece na cidade e como o clima familiar anda pesado, o pai sugere que Lília viaje com a tia para Ouro Preto. Lília vai e descobre, fascinada, uma cidade mágica. Conhece as "Tetetês", 3 garotas cujos nomes começam com T. Elas participam de um grupo de teatro de bonecos, liderado por Dirceu. Lília e Dirceu se envolvem e começam um namoro, em meio às descrições históricas da cidade e paralelos entre seu amor e do poeta árcade Gonzaga e sua amada Dorotéia.

A mãe de Lília a leva de volta à força para São Paulo, mas uma forte interferência de tia Ninota faz a mãe de Lília perceber que é melhor deixar a filha decidir seu próprio destino. O despertar de um amor verdadeiro no coração de uma adolescente que revive, no século 20, em Ouro Preto, um amor atormentado do Brasil do século XVIII. Um amor puro, de entrega, que vence a barreira do preconceito racial.


O autor




Ganymédes José

 Nasceu em Casa Branca, no interior de São Paulo, em maio de 1936. Formou-se professor em sua cidade, fez Direito na PUC de Campinas e cursou Letras na Faculdade de São José do Rio Pardo. Desde cedo, começou a juntar coisas no coração: pedaços do mundo (sua cidade, por exemplo, cabia inteira), gente, muita gente, livros, músicas... "Gosto de paz, silêncio, plantas, animais, amigos, honestidade, escrever, música, alegria, fraternidade, compreensão...", escreveu certa vez.
Retornando à sua cidade, depois de formado, o menino escritor deixou de ser menino. E não parou mais de escrever. Datilografava só com três dedos, o que não o impediu de nos deixar mais de 150 obras. É livro para todos os gostos: de mistério, humor, histórico, romântico, infantil, juvenil... Em todos, o mesmo fio condutor, a mesma energia vital: o amor à juventude. Teve obras premiadas pela APCA (1975, Melhor Livro Infantil) e pela Prefeitura de Belo Horizonte (1982, Prêmio Nacional de Literatura Infantil João de Barro).
No dia 9 de julho de 1990, quando Ganymédes se preparava para o lançamento de Umaluz no fim do túnel - mais uma grande prova de amor ao jovem - seu coração, aquele cheio de pessoas e coisas bonitas, parou repentinamente de bater. E tudo quanto ele amava levou embora, dentro do peito. Mas no que acreditava ele deixou aqui: seus livros. Reconfortante é saber que, através de sua obra, ele permanecerá cada vez mais vivo.

Ouro Preto - A grande inspiração do autor









quinta-feira, 12 de julho de 2012

Meu mundo em poucos metros quadradros



     Eu não sei por que as pessoas se preocupam tanto de eu passar tanto tempo em meu quarto. Ora, aqui eu tenho meus livros, meu violão e minhas reflexões. O que mais essa vida tem a me oferecer? Se apenas nesses poucos metros quadrados minha consciência é mais livre, meu mundo mais consistente e minha vida mais plena.

     Aqui eu já sorri, aqui eu já chorei, aqui eu  já vivi e aqui eu quiz morrer. Aqui já fui herói e covarde, vencedor e derrotado. Por mais que eu seja sociável fora daqui, nesse pequeno mundo particular meus anseios, minhas lembranças, meus medos e minhas glórias se unem à minha consciência, e, como resultado, uma profusão de pensamentos.

     Por mais incrível que pareça, na grande maioria das vezes, não sinto falta do mundo exterior. Quem responderá às minhas incertezas senão eu mesmo? quem me convencerá de algo senão eu próprio?

     O que é o mundo senão o resultado de suas percepções? Qual inimigo é mais perigoso que você mesmo? Vença a si próprio, e depois vença o sistema. Domine a si mesmo, e então evolua.

     Meu quarto pode ser pra mim gande o suficiente. Sendo o mundo pequeno demais aos meus convencimentos. Seria aqui, pois, o local ideal para minha partida. 

     Rodrigo Santana da Fonseca Amorim.

segunda-feira, 9 de julho de 2012

Love of a Silent Moon


Oh! Silent moon, reflect on me your silver glow
and hold me safe 'til dawn.
Oh! scepter'd orb, direct on me your silent face
and keep my soul 'til morn.

Glory be. Glory be. Glory be.
You and me, you and me, you and me.
Wrapped in love, help in poise,
allow your silent voice to share my prayer.

Permit my heart...
fearlessly express its radiant glow
to light the dark.



Love of a Silent Moon - Cecilia